Analistas
alemães consultados pela DW Brasil destacam importância da operação no combate
à corrupção, mas ressalvam que a Justiça não deve se envolver em disputas
políticas nem se concentrar em apenas um partido.
O modo como vêm sendo
conduzidas as investigações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
especialmente a condução coercitiva da semana passada, é alvo de questionamento
por parte de observadores alemães no Brasil.
Apesar de reconhecerem a importância da Operação Lava Jato no
combate à corrupção, também no caso de pessoas influentes, os analistas
consultados pela DW Brasil disseram ver o modus
operandidos investigadores como preocupante.
O fato de Lula ter sido levado pela Polícia Federal numa ação
com grande aparato policial e presença midiática é visto por Dawid Bartelt,
diretor da Fundação Heinrich Böll no Brasil, como uma
"espetacularização" da Justiça.
"É muito positivo o fato de estar sendo posto em prática
o princípio de que todos são iguais perante a lei, mas a ação contra Lula
fortalece a suspeita de que a Justiça Federal está envolvida em campanha
política", afirma.
A Justiça precisa tomar cuidado para não se tornar parte de
uma disputa política num momento em que os ânimos da sociedade estão exaltados,
com uma polarização entre apoiadores e críticos do PT, considera Bartelt.
"Destruição de uma reputação política"
Lula afirmou que não havia se negado a depor e que, portanto,
a condução coercitiva não seria necessária. O Ministério Público Federal, por
sua vez, argumentou que outros 116 mandados do tipo haviam sido cumpridos
durante os dois anos de existência da Lava Jato e que não houve tal clamor em
nenhum outro caso, apontando que os críticos não são contra a condução
coercitiva em si, mas contra a aplicação da medida a um ex-presidente.
Para Thomas Manz, diretor da Fundação Friedrich Ebert no
Brasil, há indícios de que, nas acusações contra Lula, trata-se menos de uma
investigação séria sobre suspeitas de corrupção e mais da destruição de uma
reputação política.
"A condução coercitiva foi vista por muitos juristas
como desproporcional. Os métodos utilizados na Lava Jato estão sendo duramente
criticados, assim como o fato de a investigação se focar de maneira unilateral
no partido do governo", afirma Manz.
Jan Woischnik, diretor da Fundação Konrad Adenauer no Brasil,
não vê as investigações da Lava Jato como unilaterais. Ele pondera que a
Justiça tem a obrigação de investigar aqueles sobre os quais recaem suspeitas
de crimes, incluindo empresários influentes, como Marcelo Odebrecht, por
exemplo. No entanto, o analista também afirma que muitas vezes se pode
questionar aspectos das investigações.
"Comedimento e discrição"
No caso específico da condução coercitiva de Lula, Woischnik
também a classifica de "midiática" e afirma que seria desejável mais
"comedimento e discrição" por parte da Justiça. "Afinal ainda
estamos na fase de investigações. Nada foi provado até o momento, e Lula ainda
não foi julgado."
O analista diz que seria um erro se a Justiça simplesmente
ignorasse as acusações levantadas pelo senador Delcídio Amaral, envolvendo Lula
e Dilma Rousseff. No entanto, a maneira "espetacular" como o
ex-presidente foi conduzido para depor prejudica a própria Justiça, avalia.
"Quanto mais profissional for o trabalho da Justiça,
mais forte e mais reconhecida ela será pela sociedade. Com ações como a da
semana passada contra Lula, a Justiça dá argumentos àqueles que dizem que se
trata de um processo com motivação política", afirma.
Em nota, a OAB do Rio Janeiro afirmou que o episódio da
última semana foi marcado pela "quebra de princípios democráticos e de
direito" e destacou o princípio da presunção de inocência.
O juiz federal Sérgio Moro, que autorizou o mandado de
coerção coercitiva contra Lula, afirmou que a ação não significa uma
"antecipação" de culpa do petista e que a medida teve como objetivo
evitar possíveis tumultos entre manifestantes favoráveis e contrários ao
ex-presidente.
Manz destaca a importância de que dúvidas sobre os métodos de
investigação adotados na Lava Jato, não apenas no caso de Lula, sejam
afastadas, "para que a Lava Jato possa ser realmente um emblema do combate
à corrupção e não do revanchismo político".
"Não se trata de investigar a oposição ou o partido do
governo, mas de que a Lava Jato se concentre em seu objetivo de combater a
corrupção", afirma.
Danos para Lula e o PT
Num momento de crise política e extrema polarização no país,
os analistas afirmam que as investigações contra Lula podem abalar ainda mais o
governo e a presidente Dilma.
"O processo contra Lula já prejudicou substancialmente a
imagem dele no país e no exterior. E isso vale também para o PT, associado à
figura de Lula", afirma Woischnik, destacando que a possibilidade de um
impeachment de Dilma voltou a ser fortemente discutida após os recentes
acontecimentos.
Bartelt, por sua vez, aponta que, para o PT, suspeitas de
corrupção envolvendo o ex-presidente oferecem riscos ainda maiores do que
escândalos semelhantes para outros partidos. Isso porque a legenda chegou ao
poder justamente com a promessa de acabar com o sistema de "troca de
favores" arraigado na política e na sociedade brasileiras, argumenta.
"E falhou nesse sentido", afirma.
Fonte: O Cafezinho.













