Há uma clara tentativa de inflar na marra os
números das manifestações de protesto deste domingo.
Procuro analisar com alguma objetividade, o que não
é exatamente fácil no fragor destes dias.
O maior esforço de multiplicação veio, como
previsto, da PM de Alckmin, saudado ontem como Ladrão de Merendas na Paulista.
A PM falou em 1,4 milhão de pessoas. (Note-se que a
mesma PM que mata negros e espanca estudantes confraterniza, em selfies
sorridentes, com defensores do golpe.)
Seria um número impressionante – se fosse verdade.
O Datafolha, que tem uma imagem a zelar e muito mais experiência em medições,
falou em um terço daquilo: 450 mil pessoas. (Depois houve reavaliação que
chegou a 500 mil.)
Tirados os apaixonados, pouca gente mesmo entre os
manifestantes hesitaria em ficar com o número do Datafolha se tivesse que
escolher entre este e o da PM.
Então passemos para a próxima etapa. Como entender os 450 mil ou mesmo
os 500 mil?
Para quem esperava mais de 1 milhão, talvez até 2 milhões, é
decididamente um fiasco.
Fui editor de revistas por muito tempo. Suponha uma
capa na Playboy de uma estrela de novela. Você, como editor, projeta vender
entre 1 e 2 milhões. Vende 450 mil. Nos estertores, a venda chega a 500 mil.
Foi uma tragédia. Não adianta você dizer que é
maior venda em dez anos, ou o que for. Você se estrepou.
Esta é uma lógica que vale para tudo. É ubíqua.
Deve-se acrescentar o seguinte: foi monumental a
propaganda feita para levar as pessoas para as ruas.
A Globo se empenhou alucinadamente. Ela e todas as
suas mídias. Logo no início do domingo, a GloboNews mostrava cenas do Brasil
com os apresentadores dizendo, incessantemente, que aquele era um protesto
contra a “corrupção” – e não pelo impeachment. Tudo ali se destinava a convocar
os espectadores.
Como parte da propaganda, o pedido de prisão de
Lula feito por procuradores de SP que acham que Engels é Hegel foi
freneticamente utilizado pela mídia.
O pedido foi milimetricamente calculado para
coincidir com os preparativos para os protestos. Numa de suas edições mais
infames da história, o JN dedicou quase 20 minutos aos “crimes” de Lula.
Muito bem.
Como se tudo isso fosse insuficiente, a recessão
empurrou muita gente para os protestos. É normal: você tende a colocar a culpa
no governo quando perde o emprego, ou quando seus negócios não vão tão bem.
Mesmo assim, mesmo com a publicidade sufocante da
mídia e o incentivo natural da recessão, a Paulista, segundo o Datafolha,
recebeu 450 mil (ou 500 mil) manifestantes.
Está longe de ser um resultado espetacular. Tanto
que agora pela manhã desta segunda uma hashtag forte no Twitter reunia
inconformados com o Datafolha. Porque 450 mil é, dadas as circunstâncias, um
número frustrante. Até o tempo ameno, sem chuva, ajudou.
Há, na mídia, uma falsa euforia, surgida da necessidade de manter a
chama do golpe.
Um magnífico exemplo disso está nas postagens no
Facebook do coordenador de jornalismo da Globo em Brasília, Esdras Paiva, em
sua conta no Facebook.
“Seis milhões de brasileiros nas ruas num protesto
sem bandeiras de partidos. E os petistas repetem o mantra do golpe (…). Alguém
tem que avisar pra eles que esse papo de golpe não colou. (…) “Somos um país de
coxinhas. Coxinhas golpistas.”
De onde Esdras tirou os 6 milhões, só Deus sabe.
Mas é sabido que é mais difícil confiar na multidão que ele criou do que no
levantamento da PM de São Paulo.
É preciso ser um incurável analfabeto político, ou um cínico golpista,
para levar a sério o que a imprensa está publicando para encobrir o fato
essencial: 13 de março esteve longe, muito longe, de ser o que seus
incentivadores e organizadores sonhavam.
Fonte: Diário do Centro do Mundo.













