Disse já mais de uma vez que tenho sido
procurado por jornalistas da Globo revoltados com o que a empresa tem feito.
Uma mensagem que me chegou ontem à noite me trouxe tristes
memórias.
Não tenho condições de
confirmar. Então vou desde já avisando que o teor da carta pode ser falso.
Mas, lamentavelmente, é uma situação factível.
X – chamemos assim –me disse o
seguinte. “Emílio Odebrecht procurou João Roberto Marinho em busca de ajuda
para seu filho Marcelo, preso. E ouviu o seguinte: ‘Fala para o Marcelo
entregar o Lula que a gente ajuda.'”
De novo: pode ser invenção, e
espero que seja. Não consigo acreditar que João Roberto Marinho fosse capaz de
uma resposta daquelas. Convivi com JRM no Conselho Editorial da Globo quase
três anos, entre 2006 e 2008, e guardei a lembrança de um homem equilibrado,
sereno e sensato.
Mas o mais importante é outra coisa.
Neste momento, já não é
surpresa se um pai desesperado recorrer à Globo na procura de ajuda para um
filho preso.
Se há alguém que pode
efetivamente colaborar num quadro daqueles é a Globo, de cujo apoio Moro
depende. Moro sabe que se a Globo se voltar contra ele por algum motivo, ele
pode terminar na cadeia pelos abusos cometidos na Lava Jato.
A mensagem de X me remeteu à ditadura militar.
Pais de filhos desaparecidos
tentavam de tudo para conseguir informações. Os donos de empresas
jornalísticas, dada a sua proximidade com os generais, eram frequentemente
procurados.
O livro K, de Bernardo
Kucinski, conta uma dessas histórias. É um livro autobiográfico. K é o pai de
Kucinski. E o enredo gira em torno da enlouquecedora jornada de K para
conseguir informações sobre sua filha, Ana Rosa, sequestrada (e morta) pela
ditadura. Ana, irmã de Bernardo Kucinski, era uma jovem e brilhante professora
de química da USP.
K recorreu a um empresário de
mídia não nomeado no livro, e judeu como ele. Mas nada obteve senão uma seca
resposta de que não havia como fazer nada, visto que ela era comunista.
A filha de K já estava morta
enquanto ele ainda a procurava. Abutres chegavam a ele dizendo que tinham
informações, e as dariam caso recebessem dinheiro.
O que K faria hoje caso um filho fosse alcançado por Moro?
Se tivesse acesso à Globo,
como provavelmente Emílio Odebrecht tem, recorreria aos Marinhos.
É a história, perturbadoramente, que se remete.
Troque os generais por Moro.
Foi dado a Moro um poder extraordinário de prender pessoas. Ninguém o
fiscaliza, ninguém lhe cobra nada. O antigo ministro da Justiça, José Eduardo
Cardozo, sempre se omitiu diante das evidências de abuso e partidarismo de
Moro.
Os juízes do STF, como notou
com precisão Lula, se acovardaram. A imprensa, interessada no foco anti-PT dado
por Moro, sempre o incentivou. Os primeiros e tímidos reparos apareceram apenas
quando extrapolou como no caso da condução coercitiva de Lula.
É apavorante a perspectiva de
que retornemos ao ambiente da ditadura. Emílio Odebrecht, quer tenha ou não
apelado para João Roberto Marinho, é um pai tão atormentado quanto K.
E isto pode ser uma tragédia nacional.
Fonte: Diário do Centro do
Mundo.













