Entrevista
explosiva do Ministro Marco Aurelio Mello ao site Sul 21.
Sérgio
Moro, diz ele ” simplesmente deixou de lado a lei” e praticou “crime, está
na lei” ao divulgar dos grampos feitos sobre Dilma Rousseff.
Sem mais
palavras.
Escancaradamente.
Leia:
Sul21: Algumas
decisões do juiz Sérgio Moro vêm sendo objeto de polêmica, como esta mais
recente das interceptações telefônicas envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva e a presidenta Dilma Rousseff. Como o senhor avalia estas
decisões?
Marco
Aurélio Mello: Ele não é o único juiz do país e deve atuar como
todo juiz. Agora, houve essa divulgação por terceiros de sigilo telefônico.
Isso é crime, está na lei. Ele simplesmente deixou de lado a lei. Isso está
escancarado e foi objeto, inclusive, de reportagem no exterior. Não se avança
culturalmente, atropelando a ordem jurídica, principalmente a constitucional. O
avanço pressupõe a observância irrestrita do que está escrito na lei de
regência da matéria. Dizer que interessa ao público em geral conhecer o teor de
gravações sigilosas não se sustenta. O público também está submetido à
legislação.
Sul21: Na sua
opinião, essas pressões midiáticas e de setores da chamada opinião pública vêm
de certo modo contaminando algumas decisões judiciais?
Marco
Aurélio Mello: Os fatos foram se acumulando. Nós tivemos a
divulgação, para mim imprópria, do objeto da delação do senador Delcídio Amaral
e agora, por último, tivemos a divulgação também da interceptação telefônica,
com vários diálogos da presidente, do ex-presidente Lula, do presidente do
Partido dos Trabalhadores com o ministro Jacques Wagner. Isso é muito ruim pois
implica colocar lenha na fogueira e não se avança assim, de cambulhada.
Sul21: Os
ministros do Supremo, para além do que é debatido durante as sessões no
plenário, têm conversado entre si sobre a situação política do país?
Marco
Aurélio Mello: Não. Nós temos uma tradição de não comentar sobre
processos, nem de processos que está sob a relatoria de um dos integrantes nem
a situação política do país. Cada qual tem a sua concepção e aguarda o momento
de seu pronunciar, se houver um conflito de posições. Já se disse que o Supremo
é composto por onze ilhas. Acho bom que seja assim, que guardemos no nosso
convívio uma certa cerimônia. O sistema americano é diferente. Lá, quando chega
uma controvérsia, os juízes trocam memorandos entre si. Aqui nós atuamos em
sessão pública, que inclusive é veiculada pela TV Justiça, de uma forma
totalmente diferente.
Sul21: A
Constituição de 1988 incorporou um espírito garantista de direitos. Na sua
avaliação, esse espírito estaria sob ameaça no Brasil?
Marco
Aurélio Mello: Toda vez que se atropela o que está previsto em uma norma, nós
temos a colocação em plano secundário de liberdades constitucionais. Isso
ocorreu, continuo dizendo, com a flexibilização do princípio da não
culpabilidade e ocorreu também quando se admitiu, depois de decisão tomada há
cerca de cinco antes, que a Receita Federal, que é parte na relação jurídica
tributária, pode ter acesso direto aos dados bancários.
Sul21: A
expressão “ativismo jurídico” vem circulando muito na mídia brasileira e nos
debates sobre a conjuntura atual. Qual sua opinião sobre essa expressão?
Marco
Aurélio Mello: A atuação do Judiciário brasileiro é vinculada ao
direito positivo, que é o direito aprovado pela casa legislativa ou pelas casas
legislativas. Não cabe atuar à margem da lei. À margem da lei não há salvação.
Se for assim, vinga que critério? Não o critério normativo, da norma a qual
estamos submetidos pelo princípio da legalidade. Ninguém é obrigado a fazer ou
deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. Se o que vale é o
critério subjetivo do julgador, isso gera uma insegurança muito grande.
Sul21: Esse
ativismo jurídico vem acontecendo em um nível preocupante, na sua opinião?
Marco
Aurélio Mello: Há um afã muito grande de se buscar correção de
rumos. Mas a correção de rumos pressupõe a observância das regras jurídicas.
Eu, por exemplo, nunca vi tanta delação premiada, essa postura de co-réu
querendo colaborar com o Judiciário. Eu nunca vi tanta prisão preventiva como
nós temos no Brasil em geral. A população carcerária provisória chegou
praticamente ao mesmo patamar da definitiva, em que pese a existência do
princípio da não culpabilidade. Tem alguma coisa errada. Não é por aí que nós
avançaremos e chegaremos ao Brasil sonhado.
Sul21: Como
deve ser o encaminhamento da série de ações enviadas ao Supremo contestando a
posse do ex-presidente Lula como ministro?
Marco
Aurélio Mello: Eu recebi uma ação cautelar e neguei seguimento,
pois havia um defeito instrumental. Nem cheguei a entrar no mérito. Nós temos
agora pendentes no Supremo seis mandados de segurança com o ministro Gilmar
Mendes e duas ações de descumprimento de preceito fundamental com o ministro
Teori Zavaski, além de outras ações que tem se veiculado que existem e que
estariam aguardando distribuição. Como também temos cerca de 20 ações populares
em andamento.
No
tocante aos mandados de segurança, a competência quanto à medida de urgência
liminar é do relator. Não é julgamento definitivo. Quanto à arguição de
descumprimento de preceito fundamental, muito embora a atribuição seja do
pleno, este não estando reunido – só teremos sessão agora no dia 28 de março –
o relator é quem atua ad referendum do plenário.
Temos que
esperar as próximas horas. A situação se agravou muito com os últimos episódios
envolvendo a delação do senador Delcídio e a divulgação das interceptações
telefônicas. Não podemos incendiar o país.
Fonte: Tijolaço.













