Por Hélio Doyle
Brasil 247 - Quem
quiser estudar um caso emblemático de manipulação da opinião pública para fins
políticos tem hoje um excelente material para pesquisa: a cobertura do episódio
batizado de “mensalão”, em especial no capítulo do julgamento pelo Supremo
Tribunal Federal da Ação Penal 470. A manipulação das pessoas pela propaganda e
pela imprensa tem sido objeto de inúmeros estudos, mas este case tem características que o fazem bem
especial. Até porque deu resultado: pessoas propositalmente desinformadas
assumindo com convicção as posições disseminadas pela mídia.
As pressões feitas durante todo o julgamento, para que os
réus fossem condenados, e às maiores penas possíveis, caracterizam um
comportamento histérico que foge a qualquer racionalidade e rigor do trabalho
jornalístico. Estabeleceu-se uma verdade absoluta e seus postulados são
disseminados sem a mínima preocupação com padrões éticos e com o compromisso
com os fatos. Tal comportamento, a pretexto de ser um combate a práticas
corruptas, explica-se apenas como instrumento para disseminar na opinião
pública uma postura igualmente histérica para derrotar adversários políticos.
A manipulação chega a ponto de o presidente
do Supremo Tribunal Federal suspender o julgamento por duas vezes, sem motivo
forte, apenas para colocar sob a pressão da imprensa e da chamada opinião
pública, dois ministros que poderiam votar contra seu relatório. E, pior,
contou com a conivência de colegas que pareciam jogadores de futebol fazendo
cera para acabar o jogo.
A hipocrisia domina, mas assim é a política.
Parlamentares cansados de recorrer ao caixa dois em campanhas eleitorais, para
dizer o mínimo, na posição de acusadores ferozes. Jornalistas que fizeram e
fazem vistas grossas a outros episódios tão ou mais graves posando de
defensores da moralidade pública. Articulistas que não escondem suas posições
ideológicas fingindo que seu ódio aos acusados é por causa dos crimes que
teriam cometido, e não porque os consideram inimigos políticos a serem
exterminados. Procuradores e juízes que já deixaram de denunciar, absolveram e
livraram da cadeia notórios ladrões e corruptos se fazendo de paladinos da
justa luta contra a corrupção.
Chega a ser ridículo pessoas que nada
entendem de Direito fazendo análises jurídicas dos votos dos ministros,
elogiando uns e criticando outros. Dando lições, advertindo, ameaçando os que
não se dispuserem a votar como eles querem que votem. Chegam a rotular votos
como “excrescências”, “bizarrices” e por aí adiante, como se fossem autoridades
no assunto.
O Supremo Tribunal Federal, bem ou mal, goste-se
ou não, já decidiu que quase todos os acusados são culpados, de diferentes
crimes. Os condenados cumprirão penas, em diferentes doses. Terão suas vidas
profissionais e políticas prejudicadas. Isso não vai mudar, independentemente
do resultado quanto aos embargos infringentes. Cinco ministros votaram pelo
acolhimento, cinco votaram contra, todos esgrimindo argumentos respaldados, de
ambos os lados, por juristas respeitados. Diante disso, não há como falar em
verdades absolutas e desqualificar juridicamente um lado ou outro apenas por
uma postura política.
Mas, para os que manipulam a opinião pública
e querem forçar a decisão que lhes interessa, é tudo muito simples: cinco
ministros estão certos e são herois, cinco estão errados e são cúmplices da
corrupção. Passam a ideia de que o acolhimento dos embargos é um novo
julgamento, é a pizza, a desmoralização do Supremo e da Justiça, a consolidação
das práticas corruptas, o domínio da impunidade, a revolta do povo nas ruas. O
pior é que contam com aliados entre juízes do próprio tribunal, que ao lado de
respeitáveis argumentos jurídicos expõem suas posições políticas e confessam,
sem pudor, que se sujeitam à dita opinião pública – fechando o circulo na
manipulação.
A motivação das pressões exacerbadas é
claramente política, distorcendo o que deveria ser apenas uma ação judicial.
Não basta que os réus sejam condenados e cumpram penas. É preciso que sejam
algemados e levados à cadeia imediatamente. E que fiquem muitos anos em regime
fechado. Na verdade, o sentimento é também de vingança: quem mandou ganhar
eleições e se manter no poder por tanto tempo? E assim o que deveria ser um
julgamento jurídico se torna um julgamento político não porque os réus e seus
aliados lhe dão esse tom, mas porque os acusadores o politizaram.
Se acusados são culpados, têm de ser
condenados. Mas um julgamento justo, em uma sociedade democrática, não pode se
dar em meio a um processo em que juízes são indevidamente e intensamente
pressionados por uma “opinião pública” manipulada pelos meios de comunicação.
Seja no julgamento de um acusado de assassinar crianças, seja no de um acusado
de corrupção. Aliás, há acusados na AP 470 com penas maiores do que
assassinos confessos, mas isso, para os manipuladores, é o de menos.
Fonte: Brasil 247.













