Por Eduardo Guimarães, do Blog da
Cidadania
Estive ontem (17.6) na manifestação
de São Paulo contra o preço das passagens no transporte público, no Largo da
Batata, zona Oeste da cidade. Cheguei às 16 horas e permaneci entre os
manifestantes até por volta das 19 horas, quando empreendi uma epopeia pra
voltar pra casa.
Descendo a
rua Cardeal Arcoverde de carro, acompanhei a procissão de jovens que se
estendia por quarteirões. Todos no mesmo rumo, todos com o mesmo ar contrito e
de determinação nos rostos.
Já na
Brigadeiro Faria Lima, a algumas centenas de metros do Largo, já não caminhavam
pelas calçadas, mas no meio da rua. Um ou outro carro passava, desviando dos
pedestres, agora donos da via, como se os motoristas pedissem desculpas por
estarem onde não deviam.
Ao longe,
grandes bandeiras brancas e vermelhas se erguiam de uma massa humana que me
impressionou por ser tão grande a uma hora do horário previsto para o início da
manifestação. Nas bandeiras brancas, as letras UJS (ou algo assim) e, nas
vermelhas, PSTU.
Agora
faltavam menos de cem metros pra chegar à aglomeração. Uma juventude bonita e
evidentemente universitária. As idades variando entre 15 e 30 anos, no máximo.
Aqui e ali, algumas pessoas maduras. Senhoras com cabelos loiros, homens
grisalhos, todos com aparência próspera.
Para um
carro grande, prateado, tinindo de novo, do qual não me ocupei de ver a marca.
Desce um homem corpulento, cabelos grisalhos, calça social, camisa social com o
botão do colarinho aberto, de onde pendia uma gravata afrouxada.
De repente,
o veículo é cercado por um grupo de três garotas e cinco rapazes. O homem
circunda o veículo e, com o porta-malas já aberto, tira dele vários quadros com
uns 40 centímetros de largura por quase um metro de comprimento.
Os quadros de madeira recobertos por material gráfico de boa
qualidade citam “corrupção”.
O motorista engravatado diz alguma coisa ao grupo de jovens e
arranca com o veículo.
Chego ao
limite da aglomeração. Grades de cerca de 1, 5 metro separam o extremo da
calçada do Largo da via dos carros. Aproveito um poste metálico próximo pra
subir nelas segurando-me nele, de forma a ter uma visão melhor da aglomeração e
registrar imagens.
Um grupo de
jovens passa por mim dizendo que fora “sacanagem” o que fizeram com o repórter
da Globo Caco Barcelos, que seria “boa gente”. Decido ir atrás pra escutar
mais, tomando cuidado em não ser percebido.
Descubro que
o repórter foi expulso da manifestação e que havia um grupo que pretendia impedir
o trabalho de qualquer um que fosse da Globo, porque a emissora “queima o
filme” do protesto.
Percebo que
as bandeiras do PSTU sumiram. Pergunto a uma garota se viu pra onde foram e ela
me explica que os que as portavam foram convencidos a não exibi-las.
Presto mais
atenção e vejo, a uns 50 metros, uma única bandeira vermelha, só que pequena.
Olhando melhor, percebo ser do PT. Decido ir lá ver quem a carrega.
Ao chegar já
não era uma bandeira, mas duas. Modestas em tamanho, diante das outras. Uma,
empunhada por uma jovem negra, baixinha, que olhava assustada ao redor. A
outra, por um rapaz loiro, cabelos longos e óculos. Também parecia tenso.
Começamos a
conversar com os dois e logo aparece o deputado federal pelo PT paulista Paulo
Teixeira, com mais duas pessoas. Fico sabendo que outros parlamentares, de
vários partidos, foram ao protesto de modo a “garantir o direito dos
manifestantes”.
Naquele
momento, com a chegada do deputado, as pessoas em volta começam a entoar um
refrão contra bandeiras partidárias. Algo como “Sem par-ti-do, sem par-ti-do”.
Os dois
jovens permanecem impassíveis com suas bandeiras. Ao contrário dos que portavam
as do PSTU, não foram convencidos. Foram apupados. Mas permaneciam impassíveis
na missão que se impuseram.
Os gritos
aumentam, mas os dois jovens continuam firmes. Uma aglomeração se forma em
volta de nós. Ouço palavrões. Peço à moça e ao seu companheiro que baixem seus
estandartes. O rapaz me atende, mas a moça não.
Alguém
arranca a bandeira da mão da moça e a empurra, ela cai, seu companheiro reage,
há chutes, mais palavrões. Os contrários às bandeiras são maioria esmagadora –
ou melhor, são todos.
No
empurra-empurra, sou separado do deputado petista e de seu grupo. E dos dois
valentes porta-estandartes.
Nesse
momento, uma quantidade imensa de pessoas – pareceram-me centenas – começam a
entoar um cântico: “Hei, PT, vai tomar no cu!!”
Já anoitece
e vejo fumaça e luminosidade colorida no meio da massa. Parecem ser fogos de
artifício ou coisa que o valha, mas não consigo me certificar.
Ouço mais
cânticos contra o PT. Arrisco chegar perto e uma mulher branca, alta,
aparentando uns trinta e poucos anos discursa contra “mensaleiros” e diz que “O
PT tem mesmo que se ferrar”.
Decido sair
dali. Contorno a manifestação. Um grupo bem menor, de umas dez pessoas, entoa
“O povo não é bobo, abaixo a rede Globo”.
Contorno
mais um pouco a manifestação e vejo mais movimentação. E gritam “Sem violência,
sem violência”. Percebo que está havendo um enfrentamento físico.
Chego próximo a um grupo bem maior em que, lá no meio, vejo
cartazes em que só consigo ler “Alckmin” e “PM”, por conta do empurra-empurra.
Parece haver divergência ali também.
Para ver o
relato na integra clique AQUI.
Fonte: Brasil 247













