Ao
se defender da delação do senador Delcídio do Amaral, o
presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves, repete os mesmos argumentos
utilizados dez anos atrás, quando a Lista de Furnas se tornou pública. O
objetivo é desqualificar a denúncia e quem fez a denúncia.
Suas declarações não se sustentam nos fatos.
O que diz Aécio: “A Lista de Furnas já teve seu autor
condenado por mais de 7 anos.”
Fato: O autor da lista é Dimas Toledo, então diretor de
Engenharia, Construção e Planejamento de Furnas, conforme atestou perícia da
Polícia Federal. Ele nunca foi condenado.
Aécio Neves deveria estar se referindo a Nílton Monteiro,
lobista e delator do esquema de Furnas.
Nílton Monteiro não é autor da
lista, mas diz ter recebido de Dimas Toledo quatro listas assinadas por eles,
idênticas, com o nome de 156 políticos da base de sustentação de Fernando
Henrique Cardoso, que na campanha de 2002 receberam dinheiro desviado de Furnas
por 91 empresas prestadoras de serviços ou fornecedora de equipamentos.
Lobista e operador assumido de
esquemas de corrupção, Nílton tinha como missão entregar os originais a
políticos que encabeçavam a lista, como forma de pressioná-los para que
negociassem com o presidente Lula a manutenção de Dimas na Diretoria de Furnas.
Nílton guardou um dos
originais, e depois que estourou o escândalo do Mensalão de Brasília, em 2005,
entregou o original à Polícia Federal. A lista foi periciada e, em 2006, sua
autenticidade comprovada.
Por que, então, Aécio mencionou a condenação de sete anos?
Nílton Monteiro foi condenado
em primeira instância num processo que não tem ligação direta com a Lista de
Furnas. A origem do processo é uma nota promissória, no valor de 3 milhões de
reais, com assinatura de advogado Felipe Amodeo reconhecida em cartório. Quando
o advogado morreu, Nílton se habilitou no inventário para receber a nota, a
família não concordou e apresentou queixa contra Nílton. Nílton diz que a
perícia, realizada pelo Instituto de Criminalística de Minas Gerais, é falsa.
Seu advogado acredita que a
condenação deva cair na segunda instância, pois todas as denúncias de Nílton,
desde o esquema da Samarco no Espírito Santo, no ano 2000, são contestadas a
princípio, e confirmadas depois. Nílton sustenta que o advogado Amodeo e Dimas
tinham negócios, e Nílton ficou com a nota, como credor por serviços que ele só
revelaria no caso de uma delação premiada no Ministério Público Federal. “Se
federalizarem a investigação, eu conto tudo”, diz.
O que diz Aécio: “(Nílton) cumpriu pena em Minas
Gerais. É ainda investigado e processado por inúmeros outros crimes.”
Fato: Nílton Monteiro nunca cumpriu pena, já que não há
condenação definitiva contra ele. Ele ficou na cadeia por dois anos, em prisão
preventiva, decretada na maior parte do tempo quando Aécio estava em campanha
para presidente da República.
“Eles queriam destruir minha
reputação, para abafar a Lista de Furnas, e com o poder que tinham em Minas
Gerais conseguiram fazer com que maus policiais, maus promotores e maus juízes
e desembargadores me colocassem na cadeia. Foi uma prisão política. Queriam
passar a imagem de que eu era bandido, e confundir as pessoas”, afirma Nílton.
O que diz Aécio: “E esta Lista de Furnas na
verdade não é uma, são inúmeras listas de furnas. Para todos os gostos”.
Fato: Existe uma só Lista de Furnas, cujo original foi
periciado pela Polícia Federal e serviu de base para a denúncia que a
procuradora da república Andréia Bayão apresentou no Rio de Janeiro em 2012,
depois de inquérito da Polícia Federal que durou seis anos. Foram onze as
pessoas denunciadas por ela, por crimes de corrupção ativa, corrupção passiva e
lavagem de dinheiro, todas sem foro privilegiado, entre elas Dimas Toledo, o
ex-deputado Roberto Jéfferson e o próprio Nílton Monteiro.
Aécio e mais de uma centena de políticos só não entraram na
denúncia porque têm foro privilegiado e a investigação contra eles está parada
na Procuradoria Geral da República, em Brasília.
O que diz Aécio: “(A lista) foi constituída para
chantagear determinados agentes políticos, inclusive do PT.
Fato: Neste esquema, o PT está fora. Todos os políticos
da lista eram da base de Fernando Henrique Cardoso, inclusive Eduardo Cunha e
Jair Bolsonaro. O objetivo da lista era mesmo chantagem, mas de políticos como
Aécio Neves, para que negociassem com Lula a permanência de Dimas em Furnas.
Por três anos, deu certo, e há vários testemunhos, entre eles o de Roberto
Jéfferson e agora o de Delcídio do Amaral, de que Aécio pediu a Lula que
mantivesse Dimas em Furnas.
No passado, a versão de Aécio prevaleceu sobre os fatos. E
agora?
Fonte: Diário do Centro do Mundo.













