O
Globo disse, num editorial, que o golpe não é golpe.
Há muito tempo ninguém mais tem
o direito de se surpreender com nada de abjeto quando se trata do Globo.
Cassar 54 milhões de votos
deixa portanto de ser golpe porque a Globo não quer. A Globo pode muito,
mas não tudo. Não pode, por exemplo, transformar um golpe em qualquer coisa que
não seja exatamente isso: um golpe.
Um golpe paraguaio,
especificamente.
Nós do DCM lutamos por um
Brasil escandinavo, justo e igualitário. A Globo quer transformar o Brasil num
imenso Paraguai.
Dar nome às coisas é mais
importante do que se imagina.
Os chineses chamaram de Guerras
do Ópio as batalhas que travaram com os ingleses em meados do século 19. Os
chineses queriam varrer o ópio britânico de sua terra. Os britânicos queriam
poder vender livremente seu ópio, produzido na Índia.
A Inglaterra, muito mais armada
militarmente, venceu. Só que os chineses conseguiram que a história registrasse
os conflitos como Guerras do Ópio, para vergonha eterna dos britânicos.
Um historiador chinês da época
notou que aquela fora a maior vitória da China – e a realmente definitiva.
Ainda hoje, as Guerras do Ópio
são lembradas com embaraço pelos ingleses, num dos capítulos mais baixos de sua
história.
No Brasil, o golpe de 1964 foi
tratado pelos vitoriosos de então como Revolução. O Globo de Roberto Marinho
não se cansou de saudar, entusiasmadamente, a Revolução.
A mesma imprensa que hoje se
empenha no golpe fez a mesma coisa: era a Revolução.
Mas não há mentira que
sobreviva indefinidamente na história de um país.
Sumiu do ar a palavra
Revolução. Até a Globo, em algum momento, teve que reformular seu vocabulário.
Nem os Marinhos chamam hoje o golpe de 1964 de Revolução.
Um governo legítimo, o de Jango
Goulart, foi removido por dar foco aos desvalidos. Alguma semelhança com o que
acontece hoje? Toda.
E no entanto o golpe se vestiu
de Revolução, na linguagem dos militares da ditadura e seus amigos da imprensa.
Não pegou.
Agora é um quadro parecido. A
Globo quer dar outro nome ao golpe, algo que mitigue o tom tenebroso do evento
sinistro que é obliterar 54 milhões de votos por meio de políticos corruptos
como Eduardo Cunha, juízes partidários como Moro e uma mídia desonesta como a
casa dos Marinhos.
É ridículo, e é inútil.
Tentar dar ares constitucionais
à quartelada por outros meios que o Brasil enfrenta hoje não vai funcionar. O
golpe militar também teve a aquiescência constitucional dos juízes do STF de
então.
O STF era tão comprometido
politicamente em 1964 como é hoje. A diferença maior é que eles eram menos
tagarelas do que Gilmar, Celso Mello etc.
Triunfe ou não o assalto da
plutocracia à democracia, a posteridade registrará o episódio da mesma forma
que ocorreu em 1964: como um golpe.
A Globo demorou meio século
para se desculpar pelo seu apoio ao golpe.
Na hipótese de os
golpistas mais uma vez vencerem, restará o consolo majestoso de que a Globo vai
morrer pelas mãos da internet muito antes que decorram mais 50 anos.
Fonte: Diário do Centro do Mundo.













