AS MÚLTIPLAS E IMPRESSIONANTES crises que assombram o Brasil
agora atraem substancialmente a atenção da mídia internacional. O
que é compreensível, já que o Brasil é o quinto mais populoso do
mundo e a oitava economia do mundo. Sua segunda maior cidade, o Rio de Janeiro,
é a sede das Olimpíadas deste ano. Porém, boa parte dessa cobertura internacional é repetidora do discurso que vem das
fontes midiáticas homogeneizadas, anti-democráticas e mantidas por
oligarquias no Brasil e, como tal, essa informação é enviesada, pouco precisa e
incompleta, especialmente quando vem daqueles profissionais com pouca familiaridade
com o país (mas há vários repórteres internacionaisque trabalham no Brasil
fazendo um ótimo trabalho).
Seria difícil exagerar quando se afirma
a gravidade da situação no Brasil em várias esferas. O trecho a seguir, publicado ontem por
Simon Romero, o correspondente do The New York Times no
Brasil, evidencia o nível de calamidade da situação:
O Brasil está enfrentando sua pior crise econômica das últimas décadas. Um enorme esquema de corrupção tem prejudicado a empresa pública petrolífera nacional. A epidemia de Zika espalhadesespero ao longo da região Nordeste. E, pouco antes de hordas de estrangeiros vierem ao país para as Olimpíadas, o governo luta pela
sobrevivência com quase todas as frentes do sistema político sob uma nuvem de
escândalo.
A extraordinária crise política brasileira
apresenta algumas semelhanças com o caos liderado por Trump nos EUA: um circo sui-generis, fora de
controle, gerando instabilidade e libertando forças sombrias, com um resultado
positivo quase impossível de se imaginar. A antes remota possibilidade do
impeachment da presidenta Dilma Rousseff parece, agora, provável.
Porém,
uma diferença significante em relação aos EUA é que a agitação no Brasil não se
limita a apenas um político. O contrário é verdade, conforme Romero comenta:
“quase todas as frentes do sistema político sob uma nuvem de escândalo”. O que
inclui não apenas o PT, partido trabalhista de centro-esquerda da presidenta –
atravessado por casos sérios de corrupção – mas também a grande maioria
dos grupos políticos e econômicos de centro e de direita que agem para destruir
o PT, que estão afundando em uma quantidade ao menos igual de criminalidade. Em
outras palavras, o PT é, sim, profundamente corrupto e banhado em escândalos,
mas, virtualmente, assim também são todos os grupos políticos trabalhando para
minar o partido e obter o poder que foi democraticamente entregue a ele.
Quando a mídia
internacional fala sobre o Brasil, ela tem focado nos crescentes protestos de
rua que pedem o impeachment de Rousseff. Essas fontes midiáticas
tipicamente mostram os protestos de forma idealizada, com uma certa
adoração: como movimentos de massa inspiradores que se levantam contra um
regime corrupto. Ontem, Chuck Todd, da NBC News, retuitou Ian Bremmer (do
Eurasia Group) descrevendo os
protestos anti-Dilma Rousseff como “O Povo contra A Presidente” – um tema
fabricado, condizente com o que é noticiado por grupos mídiáticos brasileiros
anti-governo, como a Globo:
Essa narrativa é, no mínimo, uma
simplificação radical do que está acontecendo e, mais provavelmente, uma
propaganda feita para minar um partido de esquerda há muito mal visto pelaselites políticas dos
EUA. A caracterização dos protestos ignora o contexto histórico da política no
Brasil e, mais importante, uma série de questões críticas: quem está por trás
dos protestos, quão representativos eles são em relação à população brasileira
e quais são seus verdadeiros interesses?
A atual versão de
democracia no Brasil é bastante jovem. Em 1964, o governo de esquerda
democraticamente eleito foi derrubado por um golpe militar. Oficiais
norteamericanos negaram envolvimento tanto publicamente quanto perante o
Congresso, mas – nem precisaria ser dito –documentos e registros posteriormente revelados provaram que os EUA apoiaram diretamente
o golpe e ajudaram em seu planejamento.
Os 21 anos de ditadura militar de direita
pró-EUA que se seguiram foram brutais e tirânicos, especializando-se em
técnicas de tortura usadas contra dissidentes políticos que eram ensinadas
pelos EUA e pelo Reino Unido. Um relatório compreensível da Comissão da
Verdade, em 2014,informou que
ambos os países “treinaram interrogadores brasileiros em técnicas de tortura”.
Dentre as vítimas, estava Rousseff, então guerrilheira da esquerda democrata,
presa e torturada pelo regime militar nos anos 70.
O golpe em si e a ditadura que se seguiu
foram apoiados pelas oligarquias regionais e por suas grandes redes midiáticas, lideradas pela Globo, a
qual – de forma notável – apresentou o golpe de 1964 como uma nobre derrota de
um governo esquerdista corrupto (soa familiar?). Tanto o golpe quanto o regime
ditatorial foram apoiados também pela extravagante (e absurdamente branca)
elite econômica do país, além de sua pequena classe média. Como opositores da
democracia geralmente fazem, as classes altas viam a ditadura como uma proteção
contra as massas de população pobre, composta majoritariamente por pessoas
negras e pardas. Conforme o jornal The Guardian publicousobre informações da Comissão da Verdade:
“Assim como em toda a América Latina dos anos 60 e 70, a elite e a classe média
se alinharam como o regime militar para afastar o que elas viam como uma ameaça
comunista”.
Essas divisões severas de classe e raça no Brasil continuam como dinâmica
dominante. Segundo
a BBC, em 2014, baseada em vários estudos: “o Brasil apresenta uma das maiores
níveis de desigualdade de renda do mundo”. O editor-chefe do Americas
Quarterly, Brian Winter, em reportagem sobre os protestos, escreveu nessa semana: “O abismo entre os ricos e
pobres continua sendo o fato central da vida no Brasil – e nesses protestos,
isso não é diferente”. Se você quiser entender qualquer coisa sobre a atual
crise política no Brasil, é crucial entender também o que Winter quer dizer com
essa afirmação.
O partido de Dilma, PT, foi formado em 1980
como um partido socialista de esquerda clássica. A fim de melhorar seu apelo
nacional, o partido moderou seus dogmas socialistas e se tornou, gradualmente,
mais próximo dos chamados social-democratas da Europa. Agora, existem partidos populares à sua esquerda; de fato,
Dilma, por vontade própria ou não, defendeu medidas de austeridade para resolver problemas econômicos e passar confiança aos mercados estrangeiros, e
justamente nessa semana assinou uma draconiana lei “anti-terrorismo”. Ainda assim, o PT
se mantém na centro-esquerda do espectro político brasileiro, e seus apoiadores
são, surpreendentemente, as minorias raciais e classes pobres. Enquanto no
poder, o partido promoveu reformas sociais e econômicas que levaram benefícios governamentais
e oportunidades para tirar milhões de brasileiros da pobreza.
O
Partido dos Trabalhadores está na presidência há 14 anos: desde 2002. Sua
popularidade foi um subproduto do antecessor carismático de Dilma, Luis Inácio
Lula da Silva (universalmente referido como “Lula”). A ascensão de Lula à
presidência foi um símbolo poderoso da luta da classe pobre no Brasil durante a
democracia: um trabalhador e líder sindical, de uma família pobre, que deixou a
escola na segunda série e não sabia ler até os 10 anos, preso pela ditadura por
atividade na luta sindical. O ex-presidente foi motivo de riso para elites
brasileiras por meio de um tom classista no discurso sobre seu jargão
trabalhista e sua forma de falar.
Depois de tres
tentativas infrutíferas de chegar à presidência, Lula provou ser uma força
política imbatível. Eleito em 2002 e reeleito em 2006, ele deixou o cargo com taxas de aprovação tão altasque foi capaz de garantir a
eleição de Dilma, sua sucessora, antes desconhecida pela população, e que foi
reeleita em 2014. Há muito tempo se cogita que Lula – um político que se opõe publicamentea medidas de austeridade – pretende
concorrer novamente para a presidência em 2018 depois de completo o segundo
mandato de Dilma, e forças anti-PT se sentem petrificadas com a ideia de que
Lula vença novamente.
Embora a classe oligárquica da nação tenha usado o PSDB, partido de
centro-direita, de forma bem sucedida como um contrapeso, o partido foi
impotente para derrotar o PT em quatro eleições presidenciais consecutivas. O
voto é obrigatório, e os cidadãos de baixa renda garantiram as vitórias do PT.
A corrupção entre a classe política Brasileira – incluindo o alto
escalão do PT – é real e substancial. Mas os plutocratas brasileiros, a mídia,
e as classes altas e médias estão explorando essa corrupção para atingir o que eles
não conseguiram por anos de forma democrática: remover o PT do poder.
Ao contrário da descrição romantizada e mal informada (para dizer
o mínimo) do Chuck Todd e Ian Bremmer de protestos sendo levantados “pelo
Povo”, esses são, na verdade, incitados pela mídia corporativa intensamente
concentrada, homogeneizada e poderosa, e compostos por (não exclusivamente, mas
majoritariamente) pela parte mais rica e branca dos cidadãos, que por muito
tempo guardaram rancor contra o PT e contra qualquer programa social que
combate a pobreza.
A mídia corporativa brasileira age como os verdadeiros organizadores
dos protestos e como relações-públicas dos partidos de oposição.
Os perfis no Twitter
de alguns dos repórteres
mais influentes (e
ricos) da Rede Globo contém incessantes agitações anti-PT. Quando uma gravação
de escuta telefônica de uma conversa entre Dilma me Lula vazou essa semana, o
programas jornalístico mais influente da Globo, Jornal Nacional, fez seus âncoras relerem teatralmente o diálogo, de forma
tão melodramática e em tom de fofoca, que se parecia literalmente com uma
novela distante de um jornal, causando ridicularização generalizada nas redes. Durante meses, as quatro
principais revistas jornalísticas do Brasil dedicaram capa após acapa a ataques
inflamados contra Dilma e Lula, geralmente mostrando fotos dramáticas de um ou
de outro, sempre com uma narrativa impactantemente unificada.
Para se ter uma noção do quão central é o
papel da grande mídia na incitação dos protestos: considere o papel da Fox News na
promoção dos protestos do Tea Party.
Agora, imagine o que esses protestos seriam
se não fosse apenas a Fox, mas também a ABC, NBC, CBS, a revista Time, o New
York Times e o Huffington Post, todos apoiando o movimento do Tea Party. Isso é o que está acontecendo no Brasil: as
maiores redes são controladas por um pequeno número de famílias, virtualmente
todas veementemente opostas ao PT e cujos veículos de comunicação se uniram
para alimentar esses protestos.
Resumindo, os
interesses mercadológicos representados por esses veículos midiáticos são quase
que totalmente pró-impeachment e estão ligados à história da ditadura militar. Segundo afirmaStephanie Nolen, correspondente no Rio
para o canadense Globe and Mail: “Está claro que a maior parte das instituições
do país estão alinhadas contra a presidente”.
De forma simples,
essa é uma campanha para subverter as conquistas democráticas brasileiras por
grupos que por muito tempo odiaram os resultados de eleições democráticas,
marchando de forma enganadora sob uma bandeira anti-corrupção: bastante similar
ao golpe de 1964. De fato, muitos na direita do Brasil anseiam por uma
restauração da ditadura, e grupos nesses protestos “anti-corrupção” pediram abertamente pelo fim da democracia.
Nada aqui é uma defesa do PT. Tanto por causa
da corrupção generalizada quanto pelas dificuldades econômicas, Dilma e PT
estão intensamente impopulares entre todas as classes e
grupos, mesmo incluindo a base trabalhadora do partido. Mas os protestos de rua
– como inegavelmente grandes e energizados – são direcionados por aqueles que
tradicionalmente apresentam hostilidade contra o PT. O número de pessoas
participando desses protestos – enquanto milhões – é muito pequeno em relação
aos votos que reelegeram Dilma (54 milhões). Em uma democracia, governos são
eleitos pelo voto, não por demonstrações de oposição na rua – particularmente
quando os manifestantes vem de um segmento social relativamente limitado.
Como Winter informou: “No ultimo
domingo, quando mais de um milhão de pessoas foram às ruas,pesquisas de opinião indicaram que mais uma vez a
multidão era significantemente mais rica, mais branca e com maior educação
formal do que a média dos brasileiros”. Nolen afirmou algo similar: “A
meia-dúzia de grandes demonstrações de movimentos anti-corrupção no passado
foram dominadas por manifestantes brancos e de classes altas, que tendem a
apoiar a oposição representada pelo PSDB e a ter pouca apreciação pelo partido
trabalhista de Rousseff”.
No
último final de semana, quando uma grande massa de protestos anti-Dilma tomou
diversas cidades brasileiras, uma fotografia de uma família se tornou viral, um
símbolo do que esses protestos realmente são. Mostrava um casal branco e rico
vestidos com adereços anti-Dilma que caminhava com seu cachorro de raça,
acompanhados pela babá negra – vestindo o uniforme branco que muitas famílias
brasileiras ricas exigem que suas empregadas domésticas usem – empurrando um
carrinho de bebê com os dois filhos do casal.
Como Nolen apontou, essa foto se tornou uma verdadeira síntese, da
essência altamente ideológica desses protestos: “Brasileiros, que são hábeis e
rápidos com memes, repostaram a foto com centenas de legendas sarcásticas, como
‘Apressa o passo aí, Maria, nós temos que ir ao protesto contra o governo que
nos fez pagar um salário mínimo para você’”.
Acreditar que as
figuras políticas agindo para o impeachment de Dilma estão sendo motivadas por
uma autêntica cruzada anti-corrupção requer extrema ingenuidade ou ignorância.
Para começar, as partes que seriam favorecidas pelo impeachment da Dilma estão pelos menos tão envolvidas
quanto ela por
escândalos de corrupção. Na maioria dos casos, até mais.
Cinco dos membros da comissão de impeachment estão sendo também investigados por estarem envolvidos no escândalo
político. Isso inclui Paulo Maluf, que enfrenta um mandato de prisão da Interpol e não pode sair do país há anos; ele
foi sentenciado na França três anos atrás por lavagem de dinheiro. Dos 65
membros do comitê de impeachment do congresso, 36 atualmente enfrentamprocessos judiciais.
No congresso, o líder do movimento pelo
impeachment, o líder extremista evangélico Eduardo Cunha, foi descoberto que possuía múltiplas contas secretas em bancos na Suíça, onde ele guardava
milhões de dólares que os promotores acreditam ser dinheiro recebidos como
suborno. Ele também é alvo de múltiplas investigações criminais em andamento.
Enquanto isso, o senador Aécio Neves, o líder
da oposição brasileira que foi derrotado por muito pouco na eleição contra
Dilma em 2014, teve pelo menos 5 denúncias diferentes de envolvimento com o escândalo de
corrupção. Uma das mais recentes testemunhas favoritas dos promotoresacusou-o de
aceitar suborno. Essa testemunha também implicou que
o vice-presidente do país, Michel Temer, da oposição do PMDB iria substituir a
Dilma caso ela fosse cassada.
E ainda tem o recente comportamento do juiz
chefe que está supervisionando a investigação de corrupção e tornou-se um herói popular por
sua atuação agressiva durante as investigações de algumas das maiores e mais
poderosas figuras políticas do país. O juiz, Sérgio Moro, essa semana
efetivamente divulgou para a mídia uma conversa gravada, extremamente vaga,
entre Dilma e Lula, o que a Globo e outras forças anti-PT imediatamente
retrataram como criminosas. Moro divulgou a gravação da conversa apenas algumas horas depois de ter sido feita.
Fonte:
Diário do Centro do Mundo.













