
Condenado por
ofensas de torcedores contra o goleiro santista, clube gaúcho ainda pode
recorrer ao Pleno do STJD; árbitro que não relatou em súmula leva gancho
O Grêmio está excluído da Copa
do Brasil. A decisão ocorreu após julgamento no Superior Tribunal de Justiça
Desportiva (STJD) na tarde desta quarta-feira. Em quase quatro horas de sessão
no Rio de Janeiro, os auditores resolveram pela punição após denúncia feita
pela procuradoria, baseada no artigo 243-G (e seus parágrafos) do Código
Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD). O caso ocorrera na última
quinta-feira, quando o goleiro do Santos Aranha foi alvo de injúrias raciais
por parte de torcedores gremistas, no 2 a 0 do clube paulista, pelo jogo de ida
das oitavas - a volta estava suspensa.
O clube foi multado em R$ 50 mil,
mas não perdeu mando de campo por "ato discriminatório". A decisão
não é definitiva. Cabe recurso, com novo julgamento em segunda instância no
Pleno do STJD, a ser marcado em 15 dias. O quarteto de arbitragem também fora
denunciado pela procuradoria por não ter colocado o episódio relatado por
Aranha na primeira versão da súmula. Wilton Pereira Sampaio acabou suspenso por
45 dias, enquanto os auxiliares pegaram gancho de 30 dias. O Grêmio ainda foi
julgado por arremesso de objeto, e o Santos, por atraso na volta do intervalo,
ambos levando multas de R$ 2 mil e R$ 4 mil, respectivamente.
Como foi o julgamento
O julgamento começou com o pronunciamento
do presidente da sessão Fabricio Dazzi. Depois, a procuradoria apresentou
provas em vídeo. Entre eles, reportagens de televisão e depoimento de Aranha. O
mesmo foi feito pela defesa do Grêmio, que mostrou matérias de sites com as
ações promovidas pelo clube, além de vídeos institucionais e depoimentos de
jogadores, como Zé Roberto e Matheus Biteco.
O presidente Fábio Koff foi o
primeiro a sentar perante os auditores para esmiuçar a posição do Grêmio sobre
as injúrias raciais. Com larga experiência na magistratura, Koff tratou de
exaltar os exemplos de ícones negros no clube e disse que a instituição foi
"pioneira na integração racial".
- Estou aqui para dizer que a
decisão desta tarde ela tem uma importância histórica. A decisão atinge um clube
com 111 anos de existência que atinge uma escolinha de 1,1 mil crianças, do
qual um terço é de cor. O prejuízo causado a imagem do clube é irreparável. Se
a pena ocorrer, deve ter sentido pedagógico e não ultrapassar limites - afirmou.
Koff também valorizou uma das
ações de sua gestão, de cortar privilégios de organizadas. Na segunda, a
direção anunciou a suspensão dos direitos da Geral do Grêmio.
- O Grêmio foi precursor em
cortar subsídios de organizadas e dificultar o acesso de torcedores que se escondem
num grupo. O Grêmio não dá ingresso, não paga ingresso, não facilita a vida -
defende.
Também julgado, assim como seus
auxiliares, por só relatar as injúrias raciais em adendo na súmula, o árbitro
Wilton Pereira Sampaio afirmou que ficou "assustado" ao ver as
imagens após a partida, no hotel. Em campo, confirma que não havia visto nem
ouvido as ofensas e lembrou que em jogos da Copa do Brasil não há árbitros
auxiliares atrás das metas.
- Não presenciamos nada, foi por
meio de um relato do jogador. Após o término do jogo, nenhum atleta veio
me questionar. Pensei que não havia sido nada. A gente sempre assiste ao
jogo depois e fiquei assustado com o ocorrido. Por isso, incluí o adendo
na súmula. Nós achamos que, aos 42 minutos do segundo tempo, com o Santos
ganhando o jogo, achei que era uma tentativa de passar o tempo - relatou, em
meio a forte cobrança dos auditores.
O árbitro negou que Aranha
tivesse respondido aos torcedores com xingamentos:
- O atleta se virou para a
torcida, bateu no braço e cuspiu no gramado.
- No momento em que nos viramos
para a torcida, já não eram mais ofensas racistas, eram xingamentos normais de
jogo - disse o auxiliar Carlos Berkenbrock, que falou depois de Pereira Sampaio.
O suprocurador geral Rafael Vanzin tomou a palavra para reafirmar que considera o Grêmio responsável. Segundo ele, episódios de cunhos racistas não são de hoje, e cita o caso envolvendo o zagueiro do Inter Paulão, alvo de injúrias raciais de um torcedor no Gauchão, também na Arena.
Ainda citou as postagens no Twitter, feitas pelo vice-presidente Adalberto Preis, em que alegou que Aranha fizera "grande encenação" no episódio. Por fim, pediu a exclusão do clube da Copa do Brasil, além de pena para o quarteto de arbitragem.
O suprocurador geral Rafael Vanzin tomou a palavra para reafirmar que considera o Grêmio responsável. Segundo ele, episódios de cunhos racistas não são de hoje, e cita o caso envolvendo o zagueiro do Inter Paulão, alvo de injúrias raciais de um torcedor no Gauchão, também na Arena.
Ainda citou as postagens no Twitter, feitas pelo vice-presidente Adalberto Preis, em que alegou que Aranha fizera "grande encenação" no episódio. Por fim, pediu a exclusão do clube da Copa do Brasil, além de pena para o quarteto de arbitragem.
- As palavras de Patrícia Moreira,
que ainda não prestou depoimento, assim como as imitações de macaco, são
flagrantes - Rafael Vanzin. - E as medidas tomadas pelo Grêmio não são
suficientes.
Na vez de os advogados do Grêmio
defenderem o clube, a pauta foi a preocupação da instituição em campanhas
sociais, a ajuda nas investigações policiais e a preocupação em afirmar que a
ação foi obra de uma minoria.
- Não fechamos os olhos para o que vem acontecendo. Não vamos usar o Grêmio como bode expiatório, como uma caça às bruxas - disse o adovgado do Grêmio Gabriel Vieira. - O racismo é um problema social. Quantos auditores negros temos aqui? Nenhum.
- Não fechamos os olhos para o que vem acontecendo. Não vamos usar o Grêmio como bode expiatório, como uma caça às bruxas - disse o adovgado do Grêmio Gabriel Vieira. - O racismo é um problema social. Quantos auditores negros temos aqui? Nenhum.
- Quatro torcedores em meio a 30
mil. O Grêmio não pode ser responsabilizado. Eles, sim, precisam ser punidos -
reforçou Michel Assaf Júnior, contratado pelo clube especialmente para este
caso. - Não se pode confundir extrema gravidade com a repercussão do fato, nem
reincidência.
Entenda o caso
O incidente no
jogo entre Grêmio e Santos, na Arena do Grêmio, ocorreu aos 42 minutos do
segundo tempo, quando Aranha reclamou com o árbitro Wilton
Pereira Sampaio, alegando ter sido vítima de xingamentos por parte da
torcida. O juiz mandou a partida seguir, mesmo sendo alertado por jogadores do
Santos dos incidentes que ocorriam fora de campo.
A jovem mostrada
pelas imagens do canal ESPN foi afastada do trabalho no Centro Médico e
Odontológico da Brigada Militar. Patrícia Moreira era
funcionária de uma empresa terceirizada e prestava serviços de auxiliar de
odontologia na clínica da polícia militar gaúcha. As imagens da torcedora
ofendendo o goleiro santista começaram a circular pelas redes sociais logo após
a partida. Aranha registrou boletim de ocorrência na 4ª Delegacia de Polícia na
sexta.
Diante da repercussão, Patrícia
evitou dormir em casa nos últimos dias. Ela se refugiou em residências de
parentes e amigos para evitar retaliação. Pedras
foram jogadas em direção a sua casa na noite de sexta-feira. O
GloboEsporte.com visitou a região na tarde de sábado e ouviu os vizinhos. Amigos negros da
menina de 23 anos garantem que ela não é racista. Até agora,
seis pessoas foram intimidas a depor, entre elas Patrícia.
Fonte: Globo Esporte












