Por: Luis Pellegrini
"Vocês são cristãos?",
perguntou o geriatra nissei, ao terminar de examinar meu velho pai, internado
às pressas num hospital paulista devido a uma séria crise neurológica motivada
pela sua idade muito avançada. Resposta afirmativa, o médico não hesitou:
"Eu sou budista, mas sei rezar o Pai Nosso. Vocês gostariam de rezar
comigo?" Lembro-me que eu e minha irmã nos olhamos um tanto atônitos, mas,
sem muito pensar, dissemos sim com a cabeça. O médico segurou nossas mãos,
fechou os olhos e foi em frente: "Pai Nosso, que estais no céu,
santificado seja o Vosso nome, seja feita a Vossa vontade..." Quando
terminou, nosso pai, que momentos antes se agitava em dores, ressonava
tranquilamente. O médico sorriu e foi definitivo: "A oração, às vezes, é
um santo remédio".
Em Los Angeles, o Veterans Affairs
Medical Center, uma das entidades governamentais norte-americanas mais
importantes no campo da investigação clínica, desenvolve um programa de
pesquisa sobre as variações da atividade cerebral humana durante a oração. Esse
programa faz uso da sofisticada tecnologia da ressonância magnética e do
eletroencefalograma, entre outros recursos. Ao mesmo tempo, quase uma centena
de cientistas se reuniu na Virgínia para debater os efeitos da espiritualidade
nas doenças orgânicas. Nesse encontro foi apresentado um trabalho desenvolvido
pela Darthmouth Medical School, relacionado a pessoas operadas do coração, o
qual demonstrava que a porcentagem de cura dos pacientes que se declararam
muito crentes era três vezes superior à dos que alegaram não ter nenhum
interesse em vida religiosa.
Por seu
lado, o Instituto Nacional para o Estudo do Envelhecimento, nos Estados Unidos,
revelou que, sobre uma amostragem de 4 mil idosos da Carolina do Norte, a
depressão e as enfermidades físicas afetam muito menos a quem professa uma fé
religiosa. Observou-se que a pressão arterial média das pessoas que frequentam
igrejas é mais baixa do que a daquelas que não frequentam.
Uma religião não é melhor do
que a outra
Outro dado muito importante emergiu
também dessas pesquisas: do ponto de vista da saúde, não existe uma religião
melhor que outra. O mesmo Herbert Benson estudou pessoas no ato de elevar uma
prece ou de repetir fórmulas rituais de diferentes sistemas religiosos como o
cristão, o islâmico, o budista, o taoista e o confucionista, e verificou que em
todos os casos aconteciam as mesmas alterações fisiológicas. Conclusão: não
importa qual seja a fé religiosa, o simples exercício espiritual de elevar a
consciência a planos superiores, através da prece ou da meditação, representa
benefício para a saúde.
Dicas para uma boa oração
"Muitos cristãos rezam
baixinho, com medo de que Deus os ouça realmente, porque eles, pobres
criaturas, na verdade nunca quiseram ser ouvidos", escreveu, com uma ponta
de ironia, Charles Spencer Lewis. O medo dos resultados é um tipo de pensamento
negativo sobre a oração. Larry Dossey aponta muitos outros em seus livros sobre
o poder de cura das orações, e dá dicas para corrigir posturas e atitudes que
podem comprometer a eficácia da prece. Lá vão algumas:
. Não levar a prática da oração muito a
sério. Quando notar que está levando a prática da oração muito a sério -
achando que deveria ser mais disciplinado e "rezar de forma melhor" -
procure se lembrar que ainda está aprendendo. Lembre-se da máxima do filósofo
Chesterton: "Tudo que vale a pena fazer corre o risco de ser
malfeito", e da velha piada, "Como fazer para Deus rir? Simplesmente
contando-lhe nossos planos e desejos".
. Entenda que as atitudes negativas com
relação à oração são universais. Os maiores santos e místicos de todas as
religiões se queixaram da oração uma vez ou outra. Como nós, eles achavam
difícil perseverar na oração, e lamentavam a própria fraqueza. Se às vezes você
achar que é um fiasco ao rezar, lembre-se que isso já aconteceu às pessoas mais
ilustres e espiritualizadas.
. Lembre-se de que existem muitos tipos
de oração e inúmeras maneiras de rezar. Quando temos dificuldade com um
determinado tipo de oração, ou técnica de meditação, devemos pesquisar outros.
Podemos até inventar nosso próprio jeito de orar ou meditar. Se as orações de
súplica - orações de pedido e intercessão - parecem pouco apropriadas, podemos
nos dedicar a outros tipos, como as orações de adoração, de celebração e de
agradecimento. Para a maioria das pessoas essas orações são mais leves. Elas
podem dar nova vida a nossas preces quando estas se tornam um dever
melancólico.
. Lembre-se
de que a oração não é apenas uma questão de fazer alguma coisa, mas também um
modo de ser. A escritora Dorothy Day observou: "Terá Deus uma forma fixa
de oração, um modelo que ele espera que sigamos? Duvido. Eu acho que algumas
pessoas - ou melhor, muitas - rezam dando testemunho de sua vida, através do
trabalho que realizam, das amizades que têm, do amor que oferecem às pessoas e
que delas recebem. Desde quando as palavras são a única forma aceitável de
oração?"
A oração pode assumir uma forma de
devoção - uma atitude, um estado psicomental em que sentimos uma ligação
sagrada com o Absoluto. A devoção vai muito além das mãos postas, da cabeça
inclinada e dos joelhos dobrados, e de todos os tus e vós dos textos das
orações convencionais. Ela pode estar presente não apenas na igreja, mas também
enquanto cuidamos do jardim, lavamos os pratos ou levamos os filhos para a
escola. Por meio da devoção, podemos rever nossas atitudes negativas com relação
à oração formal e ritualizada. Na devoção, sentimentos sagrados afloram
naturalmente das profundezas do nosso ser, como uma fonte límpida brotando na
encosta de uma montanha. A devoção leva-nos de volta à oração, mas à oração
transformada, a uma oração tão espontânea e natural quanto o alvorecer.
Veja
a matéria na integra AQUI.
Fonte: Brasil 274.













