247 - O
empresário Victor Civita Neto, novo presidente do conselho editorial da Abril,
tem uma chance de resgatar a credibilidade do grupo. Caso não o faça, atrairá
para si a mesma rejeição que tinha seu pai, Roberto Civita. Quem faz o alerta é
jornalista Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo, que já foi um dos
principais diretores da Abril. Leia abaixo:
A vantagem de uma jornalista bem
colocada sobre os demais brasileiros é que ela tem um imediato direito de
resposta quando é vítima de um erro.
Não depende da justiça.
Isso levou a
um fato notável na mídia brasileira: a jornalista Mônica Bérgamo, colunista
social da Folha, obteve instantaneamente um pedido de desculpas do jornalista
Otavio Cabral, da Veja.
Numa
biografia de Zé Dirceu que está chegando às livrarias e que foi capa da Veja,
Cabral errou ao situar o excelente texto de MB que narrava o preparativo de
Dirceu, no final do ano, para enfrentar o que parecia ser a prisão iminente.
MB disse que
o caso estava “completamente errado”. Dirceu, segundo o livro, a convidou para
o que se prenunciava como uma espécie de última ceia.
Foi ela que o procurou, veio a retificação.
No Twitter,
MB apontou o equívoco e, depois, informou que o autor e a editora tinham
concordado em repará-lo. E deu o assunto por encerrado para ela.
Talvez para
ela, mas para os demais brasileiros não. O caso merece ampla discussão pelo que
revela além do erro.
Tiros
previsíveis acabam não machucando
Primeiro, o
descompromisso com os fatos, sobretudo se eles são contra os suspeitos de
sempre.
Ora, se o texto
de MB foi tão importante para merecer citação no livro, por que não conversar
com ela?
Segundo o
Twitter, Cabral é casado com Vera Magalhães, editora do Painel da Folha. Se é
verdade, ele não teria sequer que procurar MB. Bastaria pedir que sua mulher
checasse o caso com a colega.
Os
brasileiros não têm o privilégio da reparação de erro que MB tem. Isso por
causa de Ayres Britto, autor do prefácio do livro precocemente morto de Merval
Pereira sobre o Mensalão.
Ayres
Britto, no STF, desativou a Lei de Imprensa da ditadura militar, mas fez um
serviço tão ruim que deixou as coisas bem piores do que eram.
Ele não
cuidou que fosse preservado o direito de resposta. Segundo a recapitulação dos
fatos, ele até pensou nisso, mas teria decidido tratar de outras coisas depois
que a Folha publicou uma reportagem em que seu genro aparecia numa situação
constrangedora.
Eis a nossa mídia, eis o nosso Supremo.
Você não
precisa ler o livro de Cabral para saber que é uma paulada em Dirceu. Basta
saber que ele trabalha na Veja.
E isso
mitiga a força de qualquer ataque, porque ele tenderá a ser calcado em razões
que vão muito além do jornalismo e da preocupação com os brasileiros.
Do mesmo
modo, qualquer elogio que a Veja faça a Joaquim Barbosa será enfraquecido pela
sua enorme vontade em fazer dele o que não é: um ex-menino pobre que mudou o
Brasil.
A perda de
influência da revista ao se tornar tão previsível nos afagos e chutes está
estampada no último Datafolha.
Joaquim
Barbosa. Numa simulação como candidato em 2014, teve 8% das intenções de voto.
O alvo predileto da Veja, Lula, teve 55%, o que lhe daria vitória no primeiro
turno.
A relativa
surpresa da capa é que na primeira edição sob nova gestão o tom seja o mesmo.
Desde a
morte do pai, o caçula Titi Civita comanda oficialmente o Conselho Editorial da
Abril. Isso quer dizer que ele é o responsável pela voz da Veja.
A visão de
Roberto Civita do governo e do Brasil contemporâneo – em suas coisas boas e
ruins — já estava completamente comprometida por conta de uma guerra pessoal
travada contra Lula.
Dada a
popularidade de Lula, e a fragilidade de quase todas as acusações feitas contra
ele nos últimos dez anos, Roberto Civita e a Veja se tornaram objeto de repulsa
de muitos brasileiros.
Em seu
obituário, a Forbes classificou a Veja como uma das publicações “mais
detestadas do Brasil”.
Era de
esperar que sob Titi, mais jovem, na casa dos 40, a revista se tornasse mais
arejada e menos raivosa, condições essenciais para que se faça bom jornalismo.
O primeiro
sinal é ruim. A revista que está nas bancas parece ter 150 anos de idade, e
tomada dos preconceitos da senectude. Você vai ao site e vê Reinaldo Azevedo
pedir cadeia para os jovens do Movimento Passe Livre.
Não há por onde escapar.
Considerada
a dimensão da repulsa à linha da revista, abrir a janela é urgente – caso se
entenda que a receita que vinha sendo seguida não traz bons resultados.
Me chamou a
atenção, ao escrever sobre a morte de RC, o grau de ódio em tantos
manifestantes.
Permanecendo
as coisas como estão, Titi Civita logo atrairá para si a herança da rejeição
que marcou os últimos anos de seu pai.
Fonte:
Brasil
247.













