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Onda de ocupações de escolas no Ceará indica politização de jovens

Dez escolas estão ocupadas no Estado até a manhã desta sexta-feira, nas quais estudantes apostam em reforço no protagonismo da juventude em busca de melhorias na educação
Com uma semana de mobilização, a ocupação das escolas estaduais no Ceará ganha força e apoio de estudantes, professores e demais integrantes da sociedade. Já são dez prédios ocupados, oito deles em Fortaleza. Os jovens cobram atenção do Governo do Estado à precariedade das escolas e ao prejuízo na qualidade de ensino diante de mudanças na rotina dos colégios secundaristas. Até a manhã desta sexta-feira (6), a última escola a aderir ao movimento foi a Dona Maria Amélia, em Juazeiro do Norte.

“A educação vem sucateada há muito tempo, mas, desde o ano passado, o governo fez uma série de cortes que sucatearam ainda mais. Os professores começaram a se movimentar e foi daí que o movimento estudantil em Fortaleza começou a ressurgir. Vimos que todo esse movimento pela greve, pela educação, está em nossas mãos. A última ferramenta foi ocupar as escolas, porque foi tentado de tudo: manifestações em frente ao Palácio, na Seduc…”, afirma o estudante do Caic Maria Alves Carioca, Luis Gustavo Sousa, 16.

O Caic do bairro Bom Jardim foi a primeira escola à aderir à ocupação, inspirada na mobilização dos estudantes do Rio de Janeiro e de São Paulo, cujas ações acontecem desde 2015. O descaso com o prédio é visto logo na entrada: pichações, mato cobrindo as grades e estruturas quebradas.

Oriundos de uma geração conectada à Internet, os jovens desmitificam crenças de que são acomodados e despolitizados. Luís Gustavo ressalta que não foi um processo fácil mobilizar a juventude para ocupar o Caic. “Tem um pouco dessa imagem (acomodação), mas é um ponto de vista emancipado. Tem gente que é mais afastado das questões políticas, mas boa parte da juventude é consciente e vem se conscientizando cada vez mais”, destaca.

Os cerca de 30 estudantes que ocupam o prédio têm se revezado em grupos que mantêm a limpeza, cuidam da segurança e preparam a alimentação dos alojados. Há pouca interferência de adultos na rotina, com exceção de funcionários da escola, outros professores e pais de alunos.

Na manhã desta quinta-feira (5), durante a visita do Tribuna do Ceará, vários jovens preparavam a alimentação do grupo. “Hoje o almoço é baião de dois com frango assado e farofa, a gente nunca iria comer uma coisas dessas nas aulas normais”, afirma o universitário e ex-estudante do Caic Lucas Silva, 18, que se juntou ao movimento.
Entre as reivindicações estão o reajuste no valor da merenda escolar, atualmente de R$ 0,30; passe livre, mais tempo de aula nos laboratórios, volta dos professores coordenadores de área (PCA) e reformas na infraestrutura.
A mobilização dos estudantes complementa a greve dos professores, que teve início em 25 de abril, cobrando mudanças desde o reajuste salarial a melhorias de condição de ensino, novos concursos e alterações no auxílio-alimentação.

A programação da ocupação inclui palestras, oficinas e debates entre alunos, professores e demais apoiadores da mobilização. “Muita gente está pensando que um bocado de jovem junto da periferia estão se divertindo e não é essa ideia que a gente está passando para a sociedade”, afirma Antonio Nayron da Costa Sousa, 22, estudante do Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) do Caic.

Adauto Bezerra

Com ocupação anunciada na noite da quarta-feira (4), a escola Adauto Bezerra é uma das principais referências no ensino público do Ceará e tem passado por dificuldades que vão desde à infraestrutura a mudanças na rotina de alunos e professores.

O movimento que, antes, dizia respeito apenas aos professores, com apoio de parte dos alunos, vive um momento singular de ocupação das escolas e reforço às reivindicações. Para o grupo docente do colégio, as portarias do Governo do Estado, anunciadas no final de 2015, que retiraram os professores coordenadores de área e reduziram a quantidade de temporários, foram o estopim da crise na educação.

Os PCAs eram responsáveis pela manutenção do plano de curso por áreas e influenciavam diretamente na execução de projetos relacionados aos laboratórios, às oficinas de redação e a atividades fora de sala de aula.

“São movimentos diferentes que se complementam porque temos bandeiras em comum, mas temos também as reivindicações particulares, como é o caso do passe livre para os estudantes”, ressalta o professor de Língua Portuguesa Samuel Holanda.

A ação estudantil atrai professores e alunos que também pretendem ocupar e reforçar a cobrança em outros colégios estaduais. “Nosso trabalho é também mobilizar outras escolas”, ressalta o estudante Matheus Lopes, 17.

“A ocupação é o movimento estudantil mostrando apoio, mas também mostrando autonomia porque não é só pela greve (dos professores), tem também os pontos estruturais que são bem desumanos”, pontua a estudante Raphaele Esther, 17.
Outras escolas

Também estão ocupados os colégios Castelo Branco, João Mattos, Jader Moreira de Carvalho (Serrinha), Mariano Martins (Henrique Jorge), Dom Lustosa (Edson Queiroz) e Irapuan Cavalcante Pinheiro (Conjunto Esperança) em Fortaleza. Na cidade de Juazeiro do Norte, na Região do Cariri, a ação já acontece na Escola Presidente Geisel Polivalente e na Maria Amélia.

“Vamos ter uma onda de ocupações, uma grande tsunami de secundaristas”, pressagia Luis Gustavo, do Caic.

A mobilização dos alunos e a programação de cada ocupação podem ser acompanhadas através das redes sociais, em perfis como “ocupaadauto”, “ocupacaic” e “ocupaccb”.

Resposta do Governo

Em relação ao Caic Maria Alves, a Secretaria da Educação afirma que já foram feitas melhorias na infraestrutura e prevê novas reformas ainda este ano. “Em 2013, a quadra poliesportiva foi reformada, além da colocação de manta asfáltica no teto para evitar vazamentos. Em 2014, houve a reforma da caixa d’água e cisterna. Um engenheiro civil da Seduc já realizou visita técnica à escola e participou também de reunião com o Conselho Escolar – composto pelo presidente, direção da escola, 1 aluno, 1 professor e 1 superintendente da Sefor (Superintendência das Escolas Estaduais de Fortaleza) – para verificar todas as melhorias necessárias. Um orçamento está sendo elaborado pelo engenheiro responsável”, afirma.

Em relação à Adauto Bezerra, a Seduc diz que também mandou engenheiro à escola para um levantamento sobre reformas necessárias, cujo orçamento está em elaboração.

Sobre o fim do cargo de Professor Coordenador de Área, a Seduc afirma que, ainda em 2016, todas as escolas estaduais regulares contarão com o “Professor Coordenador de Estudos e Apoio ao Trabalho Docente (PCE)”. O profissional deve atuar “como coordenador da formação em serviço dos seus pares, dando suporte às atividades pedagógicas da escola”. A seduc ressalta que será ofertado um PCE a cada 20 professores por escola.

No que diz respeito à cobrança de aumento na merenda escolar, o Governo Estadual diz que é competência do Governo Federal, através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), cujo valor é estabelecido pelo Ministério da Educação.
Fonte: Tribuna do Ceará
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